"Quanto a Sócrates, sentara-se no leito e, tendo
encolhido a perna,esfregava-a fortemente com a
mão. E enquanto a esfregava dizia-nos: "Como
parece aparentemente desconcertante, amigos, isso que
os homens chamam de prazer! Que maravilhosa relação
existe entre a sua natureza e o que se julga ser o seu
contrário, a dor! Tanto um como a outra recusam ser
simultâneos no homem; mas procure-se um deles -
tenhamos preso um deles - e estaremos sujeitos quase
sempre a encontrar 5 também o outro, como se fossem
uma só cabeça ligada a um corpo duplo! Parece-me,
mesmo, que Esopo, se nisso tivesse pensado, teria
composto uma fábula a esse respeito: a Divindade,
desejosa de lhes pôr fim aos conflitos, como visse
frustrado o seu intento, amarrou juntas as duas cabeças;
e é por isso que, onde se apresenta um deles, o outro
vem logo. É, assim, que se lhe afiguram as coisas:
devido ao grilhão, há pouco sentia dor na minha perna, e
já agora sinto prazer! [...]"
Platão