Este beijo em tua fronte deponho! Vou partir. E bem pode, quem parte, francamente aqui vir confessar-te...
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Não sinto nada mais ou menos
Não sei brincar e ser café com leite. Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma, que tenha coragem suficiente pra me dizer o que sente antes, durante e depois ou que invente boas estórias caso não possa vivê-las.
Porque eu acho sempre muitas coisas – porque tenho uma mente fértil e delirante – e porque posso achar errado – e ter que me desculpar – e detesto pedir desculpas embora o faça sem dificuldade se me provarem que eu estraguei tudo achando o que não devia.
Quero grandes histórias e estórias; quero o amor e o ódio; quero o mais, o demais ou o nada. Não me importa o que é de verdade ou o que é mentira, mas tem que me convencer, extrair o máximo do meu prazer e me fazer crêr que é para sempre quando eu digo convicto que nada é para sempre.
Gabriel García Marquez
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Intimidade

No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,
Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,
No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.
José Saramago
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
O lado negro dos signos - Peixes
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Meditação dinâmica e o corpo
Por exemplo: você está sentado em silêncio na última parte da meditação, imóvel, e começa a sentir muitos problemas no corpo, Sente que a perna está dormindo, a mão está coçando, as formigas estão subindo pelo corpo. Você já olhou várias vezes e não há formigas. O formigamento é interno, não externo.
O que você deve fazer? Se a perna está dormindo, observe, ponha toda sua atenção nisso. Se está sentindo coceira, não coce. Isto não ajudará. Apenas preste atenção. Nem mesmo abra os olhos. Preste atenção nisso interiormente, espere e observe. Dentro de alguns segundos, a coceira desaparecerá.
Observe qualquer coisa que aconteça - mesmo que você sinta dor, uma dor forte no estômago ou na cabeça. Isto pode acontecer porque, na meditação, o corpo inteiro muda; sua química muda. Coisas novas começam a acontecer e o corpo está num caos.
Algumas vezes, o estômago será afetado, porque você reprimiu muitas emoções no estômago e agora elas foram remexidas. Às vezes, sentirá náuseas, vontade de vomitar. Outras vezes, sentirá uma forte dor de cabeça, porque a meditação muda a estrutura interna do cérebro. Nessa fase da meditação, você estará realmente num caos. Logo as coisas se acalmarão. Mas, nesse momento, tudo ficará em tumulto.
Então, o que fazer? Simplesmente veja a dor na cabeça, observe-a. Seja um observador e esqueça-se de que é um agente. Pouco a pouco, tudo se acalmará, e de uma maneira tão bela e graciosa, que você não poderá acreditar antes de conhecê-la.
Não apenas a dor de cabeça desaparecerá - pois a energia que estava criando a dor, ao ser observada, desaparece - mas essa mesma energia tornar-se-á prazer. A energia é a mesma.
Dor ou prazer são duas dimensões da mesma energia. Se você puder permanecer sentado em silêncio, prestando atenção nas perturbações, todas elas desaparecerão. E, quando desaparecerem, você perceberá de repente que o corpo inteiro desapareceu.
Osho
sábado, 23 de outubro de 2010
Só

Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alterava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demônio, ante meus olhos.
♥ Edgar Allan Poe ♥
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna
Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)
Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.
Manuel Bandeira
domingo, 17 de outubro de 2010
O sábio
Aquele que conhece a si mesmo é iluminado.
Aquele que vence os outros é forte.
Aquele que vence a si mesmo é poderoso.
Aquele que conhece a alegria é rico.
Aquele que conserva o seu caminho tem vontade.
Seja humilde, e permanecerás íntegro.
Curva-te, e permanecerás ereto.
Esvazia-te, e permanecerás repleto.
Gasta-te, e permanecerás novo.
O sábio não se exibe, e por isso brilha.
Ele não se faz notar, e por isso é notado.
Ele não se elogia, e por isso tem mérito.
E, porque não está competindo, ninguém no mundo
pode competir com ele.
Lao Tsé - Tao Te Ching
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Lua Adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
Cecília Meireles
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Martírio
Beijar-te o aspecto altivo:
Beijar-te a tez morena:
Beijar-te o rir lascivo:
Beijar-te o ar que aspiras:
Beijar-te o pó que pisas:
Beijar-te a voz que soltas:
Beijar-te a luz que visas:
Sentir teus modos frios:
Sentir tua apatia:
Sentir até repúdio:
Sentir essa ironia:
Sentir que me resguardas:
Sentir que me arreceias:
Sentir que me repugnas:
Sentir que até me odeias:
Eis a descrença e a crença,
Eis o abismo e a flor,
Eis o amor e o ódio,
Eis o prazer e a dor!
Eis o estertor da morte,
Eis o martírio eterno,
Eis o ranger de dentes,
Eis o penar do inferno!
Junqueira Freire
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
O Oceano do Outro

Há milhões de ondas no mar. Você nunca vê o mar, apenas as ondas, porque são elas que estão na superfície. Esqueça as ondas: elas não existem de fato, somente o oceano. Sempre que você tiver tempo, olhe nos olhos do amigo, do seu amor ou de qualquer outra pessoa. Não pense, apenas olhe cada vez mais fundo dentro dos olhos do outro. Logo perceberá que as ondas se cruzaram e um oceano se abriu para você. Os olhos são portas. Se você olhar profundamente, as ondas desaparecerão e o oceano se revelará. Experimente fazer isso com uma pessoa, depois tente com um animal e só então com as árvores e as rochas. Se perceber alguma coisa diferente, saiba que você está na superfície. As diferenças estão na superfície, pois a pluralidade pertence à superfície. Olhe profundamente e não se deixe iludir pela superfície. Há um oceano ao seu redor. Você e seu ego não passam de uma onda. Atrás do ego está oculto o desconhecido.
Osho
domingo, 19 de setembro de 2010
Amar!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...
Florbela Espanca
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Inconstância

Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!
Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!
Passei a vida a amar e a esquecer...
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando...
E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também... nem eu sei quando...
Florbela Espanca
terça-feira, 7 de setembro de 2010
As Portas da Percepção

"Quando nos sentimos como se fôssemos os únicos herdeiros do universo, quando 'o mar corre em nossa veias [...] e as estrelas são nossas jóias', quando todas as coisas parecem infinitas e sagradas, que motivos poderemos ter para a cobiça ou a soberba, para a fome de poder ou para as formas mais doentias de prazer?"
"As Portas da Percepção (no original em inglês, The Doors of Perception) é um livro de 1954, escrito por Aldous Huxley, onde o autor pormenoriza as suas experiências alucinatórias quando tomou mescalina. O título provém de uma citação de William Blake:
- "If the doors of perception were cleansed everything would appear to man as it is, infinite."
- "Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito."
Baseado nesta citação, Huxley assume que o cérebro humano filtra a realidade de modo a não permitir a passagem de todas as impressões e imagens que existem efectivamente. Se isso acontecesse, o processamento de tal quantidade de informação seria simplesmente insuportável. De acordo com esta visão das coisas, algumas drogas poderiam reduzir esse processo de filtragem, ou "abrir as portas da percepção", como é dito metaforicamente. Com o intuito de verificar esta teoria, Huxley começou a tomar mescalina e a descrever os seus pensamentos e sentimentos sob o efeito da droga. A sua principal impressão será a de que os objetos do nosso cotidiano perdem a sua funcionalidade, passando a existir "por si mesmos". O espaço e as dimensões tornam-se irrelevantes, parecendo que a percepção se alarga de uma forma espantosa e mesmo humilhante já que o ser humano se apercebe da sua incapacidade para fazer face a tantas impressões.
Além de drogas como a mescalina, o LSD, o DMT (substância), a psilocibina, etc, outras formas citadas para se abrir as portas da percepção seriam:
- Períodos prolongados de silêncio e isolamento.
- Jejuns prolongados.
- Auto-flagelação.
Huxley explica que uma das razões porque as portas da percepção normalmente ficam semi-cerradas seria para a própria proteção do indivíduo, que de outra forma se distrairia com a enxurrada de estímulos desnecessários para a sobrevivência.
Esse livro foi a fonte de inspiração para o nome da banda The Doors, que apresenta uma obra com características semelhantes ao do livro, quebra de paradigmas, oposição a normas e costumes vigentes e uso de drogas."
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Cosmoconsciência
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Embriague-se

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: Eis a única questão Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso. Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se. E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; E o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: "É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso". Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.
Charles Baudelaire
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Ciganos em Viagem
Levantou arraiais hoje de madrugada;
Nos carros, as mulher', c'o a torva filharada
Às costas ou sugando os mamilos pendentes;
Ao lado dos carrões, na pedregosa estrada,
Vão os homens a pé, com armas reluzentes,
Erguendo para o céu uns olhos indolentes
Onde já fulgurou muita ilusão amada.
Na buraca onde está encurralado, o grilo,
Quando os sente passar, redobra o meigo trilo;
Cibela, com amor, traja um verde mais puro,
Faz da rocha um caudal, e um vergel do deserto,
Para assim receber esses p'ra quem 'stá aberto
O império familiar das trevas do futuro!
Charles Baudelaire
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
LINHAS SOBRE A CERVEJA
Esvaziarei este copo novamente
Visões as mais hilariantes embarafustam
Pela alcova de meu cérebro
Pensamentos os mais curiosos fantasias as mais extravagantes
Ganham vida e se dissipam;
O que me importa o passar das horas?
Hoje estou tomando cerveja.
Edgar Allan Poe
Razão de Ser
-
Escrevo.
-
E pronto.
-
Escrevo porque preciso,
-
Preciso porque estou tonto.
-
Ninguém tem nada com isso.
-
Escrevo porque amanhece,
-
E as estrelas lá no céu
-
Lembram letras no papel,
-
Quando o poema me anoitece.
-
A aranha tece teias.
-
O peixe beija e morde o que vê.
-
Eu escrevo apenas.
-
Tem que ter por quê?
Paulo Leminski
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Sociedade Epicuréia (ou a Casa de Satã)

"- Tenho uma casa aqui na entrada da cidade. Entrando, à direita, defronte do cemitério."
Essa casa existiu.
Em seu livro E assim nasceu a Escrava Isaura, José Armelim, neto de B.G., informa que a casa era conhecida por Chácara dos Ingleses, porque seu primeiro morador foi o inglês John Rademacker.
Ela ficava na Rua da Glória (hoje Praça Almeida Júnior), defronte a um cemitério de indigentes e de escravos.
Foi nessa casa em que moraram os estudantes Alvares Azevedo, autor de Se eu morrese amanhã, Bernardo Guimarães e Aureliano Lessa, entre outros.
A casa tornou-se famosa porque nela, em 1849, os estudantes da São Francisco fundaram a Sociedade Epicuréia. Na casa, uma turma de rapazes "pintou o diabo e celebrou maluquices, alarmando a pacata cidadezinha de São Paulo", registra o escritor Raimundo de Menezes na edição de 14.06.1946 do Estado de S. Paulo.
Bernardo de Guimarães era um dos principais animadores da Casa de Satã.
A Sociedade Epicuréia inspirava-se no romantismo do excêntrico poeta George Gordon Byron (1788-1824). Lord Byron, como era conhecido, cultivava a beleza do horror, do repulsivo, do monstruoso, do satânico. Cultivava a energia rebelde, numa contraposição à estética clássica, à passividade, à inércia.
Byron teve grande influência em toda a Europa e repercurtiu-se também nos rapazes da Faculdade São Francisco, principalmente em Álvares de Azevedo.
As sessões da Sociedade Epicuréia - realizadas na Chácaras dos Ingleses e em outras repúblicas da periferia - abalaram a pacata São Paulo.
Couto de Magalhães conta que "Bernardo, Azevedo e [Aureliano] Lessa dispunham de tudo para o cerimonial da orgia. Tapetes, indumentária, caveiras, ossos humanos, trípodes, caçoilas, armações funerárias etc. Na Epicuréia dominavam reflexos de satanismo".
As mulheres não participam das sessões. "Mulheres só eram permitidas nas libertinagens sem cerimonial", explica Magalhães.
Bernardo Guimarães exagerava no álcool, principalmente o éter. "Ficou semanas inteiras sepulto, com os comparsas, nos comodos, bebendo sem parar. Registraram-se cenas indecorosas, impossíveis de serem narradas. E houve desregramentos piores, de horrorizar. As sessões terminavam quando não havia mais bebidas", relata Magalhães.
O cerimonial obedecia algumas orientações byronianas.
Na casa eram soltos gatos pretos, sapos, corujas, morcegos, urubus, cobras, lagartixas e tudo quanto é bicho do folchore do horror.
Entre uma declamação e outra de poemas, o vinho era servido em caveiras roubadas do cemitério de indigentes. Havia brindes a Baco, a Epicuro e a Sileno.
Do lado de fora, sem entender nada e com medo, ficavam os escravos dos estudantes.
Em algumas sessões, havia encenações d'A Divina Comédia. Em outras, enquanto alguns estudantes corriam pela casa imitando animais, Bernardo cantava canções macabras e Álvares de Azevedo lia contos de horror.
Os excessos alcóolicos dessas farras prejudicaram a saúde de muitos estudantes, levando-os à morte precoce. Esse não foi o caso de B.G., que morreu aos 69 anos.
O crítico literário Antônio Cândido, no Estado de S. Paulo de 25.01.1954, assim sintetizou a Sociedade Epicuréia: "Ponto de encontro entre a literatura e a vida, onde os jovens procuravam dar realidade às imaginações românticas".